Nós cremos no amor de Deus

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Na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, que completou dez anos, Bento XVI diz que a existência cristã pode ser sintetizada na sentença: “Nós cremos no amor de Deus”, que ele resume de 1Jo 4, 16. “Desse modo, pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida”, diz ele. Parece uma frase simples, com contornos vagos demais para definir a fé cristã, mas de fato ali está tudo: o amor do Deus Uno e Trino, manifestado de modo pleno na pessoa de Jesus Cristo, é posto no centro,¹ e o sujeito é plural: a comunidade dos discípulos, a Igreja. Nesse binômio nós-Deus, em que o centro é o amor derramado por Ele sobre o seu povo, estão todas as outras imagens que nos fazem compreender melhor o mistério cristão, como esposa-Esposo, corpo-Cabeça, ramos-Videira.

Um dos grandes desafios para a comunidade da Igreja hoje é se reconhecer de tal maneira na realidade dessa afirmação que qualquer diferença não seja capaz de jogar sombra na unidade aí descrita. Explico. Há uma variedade de carismas na Igreja; no último século, surgiram no seu seio milhares de movimentos, congregações, organismos e correntes, que, ao mesmo tempo em que expressam uma pluralidade legítima, são sempre carentes de uma contínua reforma interior. A pluralidade dos carismas, no entanto, não pode se sobrepor à unidade da experiência do amor do Pai em Jesus Cristo através do Espírito Santo.

É uma questão de hierarquia das verdades² – essa experiência não pode ser maior do que as preferências que eu nutro por uma ou outra maneira de rezar ou de agir pastoralmente, por exemplo. No dia-a-dia da Igreja, porém, não é bem assim. A crítica que o Papa Francisco costuma fazer à auto-referencialidade na vida da Igreja parece se aplicar muito bem a essas realidades. Quem se identifica com um movimento raramente se abre a participar de uma atividade de outro; quem adere a uma vertente teológica ou espiritual dificilmente escuta com abertura o discurso de outra; o outro só interessa enquanto possível membro do meu grupo. Isso para dizer o mínimo: o mais comum mesmo é que se acabe caindo na ridicularização do outro, por piada ou por combatividade, mas sempre com uma cor arrogante.

Um amigo meu me contou que uma experiência de missão realizada por jovens universitários em uma paróquia de periferia, que a princípio incluiria apenas estudantes católicos, acabou contando com a participação de uma evangélica. Ela fez dupla com uma católica e bateram de porta em porta para evangelizar. É claro que a reação de alguns dos visitados – assim como, talvez, a de alguns leitores – era de estranhamento, mas o fato é que isso também os desarmava: havia algo maior a ser anunciado do que a identidade denominacional de cada uma. As diferenças entre católicos e evangélicos são importantes e precisam ser refletidas e debatidas; mas a nossa unidade está na graça batismal, que nos reveste de Cristo, nos unge do seu Espírito e nos faz filhos de Deus. Perto disso, qualquer diferença é desproporcional e não deve ser tratada como uma muralha. O Papa Francisco tem sido muito claro a respeito disso.³

O problema é que nem mesmo entre os católicos nós temos conseguido pregar juntos. Os diversos carismas, em vez de se enriquecerem mutuamente,4 tratam-se como se fossem opostos – talvez não no discurso oficial, mas muitas vezes na prática. Há dificuldade até mesmo em orar juntos. É preciso perguntar o porquê disso tudo. Por que é tão complicado que um católico identificado com o movimento carismático, outro mais ligado ao tradicionalismo e um terceiro ligado a causas sociais se reúnam em um momento de oração ou em uma atividade de evangelização? Acaso a experiência da graça batismal, a experiência de crer no amor de Deus, a experiência do encontro com a Pessoa de Jesus é menor do que as suas opções pastorais e as suas preferências estéticas a respeito da vida de oração?

É certo que, em determinado contexto, uma ou outra opção pastoral possa ser mais conveniente. Mas essas diferenças não podem fazer sombra sobre o cerne do ser cristão: o encontro com o amor de Deus na Pessoa de Jesus. Nós cremos no amor de Deus – somos a Igreja que em sua miséria recebeu o amor do três vezes Santo. Essa é “a melhor parte”, “a única coisa necessária”. Diante desse sublime mistério de misericórdia, não é mesquinharia dividir-se por causa de estética litúrgica, visão política e forma de rezar? Não esqueçamos nunca o que ensinou São João XXIII: “É preciso manter também a norma comum que, expressa com palavras diversas, se atribui a diferentes autores: nas coisas necessárias, unidade; nas duvidosas, liberdade; em todas, caridade.”5

  1. É interessante ler o Catecismo da Igreja Católica, n. 25, que é uma citação do Catecismo Romano.
  2. Importantíssima a leitura dos pontos 34-39 da Exortação apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco (24 de novembro de 2013).
  3. Ver o seu discurso na visita à Igreja Luterana de Roma, em 15 de novembro de 2015.
  4. Pretendo escrever sobre isso em breve.
  5. São João XXIII, Carta encíclica Ad Petri Cathedram, n. 37 (29 de junho de 1959).