No capítulo 75 de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis narra as considerações que Brás Cubas faz sobre D. Plácida, filha ilegítima de um sacristão e de “uma mulher que fazia doces para fora”.
Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia. ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de D. Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou D. Plácida. É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: ‘Aqui estou. Para que me chamastes?’ E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: “Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia”.
“Para que me chamastes?” A descrição que se segue é a de uma vida vazia, sem sentido. Não que os trabalhos comuns do cotidiano não tenham sentido; mas, por si só, não bastam. D. Plácida veio ao mundo sem “por quê” nem “para quê”: veio duma “conjunção de luxúrias vadias”, veio sem ser pedida, sem ser desejada. O resultado: uma vida inútil.
Aqui é a parte que poderiam entrar os grandiosos humanistas que defendem bravamente a sociedade das cruéis garras da Igreja Católica, dizendo coisas como: “É isso que a Igreja faz quando proíbe os métodos contraceptivos! Afinal, uma criança precisa ser desejada para vir ao mundo, para que tenha uma vida com mais propósito que a de D. Plácida.”
Mas que vida oferecem esses mesmos arautos da dignidade humana? Podem talvez oferecer uma instrução escolar melhor, um emprego mais bem visto, um padrão de vida com mais bem-estar. Pois que seja, que ofereçam o emprego mais concorrido, a educação mais requintada e o melhor bem-estar possível: ainda assim, se junto a tudo isso não vier um sentido, uma razão de existir, continuamos com uma vida tão sem sabor quanto a de D. Plácida – uma vida ainda incapaz de responder satisfatoriamente à pergunta: “Para que me chamastes?”
A orientação da Igreja a respeito da contracepção atende justamente a essa pergunta. Claro, é preciso pensar em quem deseja seguir o ensinamento de Cristo na Igreja em tudo: porque a grande falácia de quem critica a Igreja a respeito disso é supor que as pessoas, mesmo quebrando todos os outros mandamentos a respeito da sexualidade, não usariam métodos contraceptivos por obediência à Igreja. Assim ouvimos absurdos como o de que a Igreja favorece a disseminação de DSTs quando orienta a não usar camisinha: para isso seria preciso admitir que fulano e fulana deram as costas à Igreja quando desejaram ter relações sexuais antes do casamento, mas obedeceram piedosamente a ela quando não usaram camisinha.
Por outro lado, quando se vive de fato o cristianismo, com autenticidade, em plenitude, a vida é outra. Toda relação sexual será uma relação de amor, toda a sexualidade estará voltada para o amor. E a criança que nela será gerada será fruto da manifestação mais intensa e sublime de amor entre um homem e uma mulher: será desejada, será querida, será amada, porque não se usurpou o sentido da sexualidade e o casal está sempre aberto à possibilidade de gerar uma nova vida.
Vivendo essa vida verdadeira, vivendo o amor verdadeiro, esse casal não terá problema algum em responder à fantástica pergunta de seu filho: “Para que me chamastes?” Seja para ser uma costureira ou para ser o Papa, essa nova pessoa foi chamada para viver o amor, viver a vida em plenitude, a vida verdadeira, que é a vida dada por Deus na graça, que começa aqui e se torna perfeita na eternidade.
Felipe, minha concepção se parece um pouco com a de D. Plácida. Mamãe, que é uma mulher admirável e excelente, era noiva de um homem se caráter. Assim que ela engravidou de mim, ele (o meu progenitor) sumiu.
Mamãe era empregada doméstica, e quando eu nasci teve que largar o emprego para ficar uns meses de favor na casa de uma irmã. Enfim, o fato de eu não ser desejada por aquele homem tornou tudo muito difícil. Mas, graças a Deus, isso não determinou a minha vida!
Hoje estou aqui, cheia de defeitos, carregando algumas tristezas, mas acima de tudo cheia de esperança, com uma bagagem enorme de momentos de intensa alegria, de abraços, de sorrisos, de amigos, de amor.
O Senhor me deu o sobrenome que o meu progenitor se recusou e me dar, e hoje, ainda que indigamente (espero mesmo melhorar a caad dia), eu carrego o nome dele, e já recebi boa parte de minha herança, aqui nesta vida.
Sim, entre lágrimas e sorrisos, minha vida tem muito sabor!
Viviane, você apontou um lado da questão em que eu realmente falhei em não abordar nesse texto, por puro esquecimento. É verdade que, seja lá o que acontecer na concepção de uma pessoa, a graça de Deus sempre faz brotar, novamente, os meios para que a pessoa chegue ao sabor da vida. E é verdade também que as coisas como deveriam ser, o ideal que Deus sonha para nós, tornaria isso tudo mais fácil. E que beleza é ver a proximidade de um Deus que corrige os erros de seus filhos para que eles não prejudiquem a si mesmos! Tomando a analogia que o Papa fez certa vez, de que a história do mundo é como uma grande sinfonia, composta e regida por Deus, cuja música nós executamos, é como se, diante de alguém que descarta a partitura e toca (mal) do seu próprio jeito, Deus mesmo tomasse nas mãos o instrumento para que seus filhos não saiam prejudicados pelo erro de um deles. E veja que bela música Ele vem compondo e regendo na sua vida!
Obrigada por ser católica, obrigada por defender a Igreja Católica!
Ótimo texto, Deus é mesmo maravilhoso e conduz tudo na mais perfeita harmonia, tudo nessa vida tem um propósito. Parabéns pelo post e aos comentários.